8h correr pelo menos uma hora
10h chegar no escritório
13h almoço com cliente (seja pontual)
20h último horário da manicure
21h drinque com amigas (nada pontual)
24h cama, enfim!
Quando eu tinha doze anos me chamaram para ir ao teatro. Lembro-me com perfeição de vestir uma blusona de lã, uma calça jeans de uma cor que jamais usaria hoje e meu adidas star (moderninha que era). A peça era “Confissões de adolescente” – eu tinha doze anos!
Chegando lá, num frio do cão, olhei ao meu redor e fiquei assustada. “Que poha é essa?!” – pensei. As mulheres usavam seus casacos peludos, brincos dourados e salto quinze. Os homens se vestiam como executivos (só que era domingo). Senti-me mendiga, porque na época não usava estilo como desculpa para me vestir mal. Pensei em fugir, mas as minhas amiguinhas impediram. Vi a peça na primeira fila porque sou muito burguesa e tinha ingresso dos patrocinadores (e não enxerguei nada porque a primeira fila era péssima) e ri litruz bastante. No final foi tudo bem e todos sobreviveram.
Anos mais tarde fui novamente assistir uma peça dessas clichês globais. Só que daí o enredo era outro: as pessoas continuavam a se vestir no estilo selvagem-urbano e eu continuava com a mesma roupinha da infância, só que diferente da outra experiência não me senti uma mendiga. Dessa vez eu não achei tanta graça e o final acabou sendo um alívio.
Hoje e somente hoje eu entendi: é que na minha querida cidade, cultura é fato raro e quando a festa é boa a gente usa a melhor das nossas roupas.
Já não gostei dele e não gostei mesmo. Não precisei de motivos para isso, apenas a pose de superior e o cachecol dele já me irritaram bastante. Pareceu que horas de trabalho eram as coisas mais importantes do mundo.
Se inicialmente não tive boas impressões dele, imagine só quando ele resolveu falar. Falar e falar e como falava. Dizem que nosso próprio defeito nos incomoda mais. Era para um grupo que ele exaltava suas qualidades, mas parecia que tudo era só para mim. Tudo pessoal.
Mas a cereja do bolo foi o momento que ele resolveu fazer perguntas e as fez justamente para mim. Perguntou-me sobre habilidades e eu respondia furiosamente doce que não as tinha. Ele se irritou. Eu me irritei ainda mais. De repente ele me pergunta (como quem enfia uma faca no estômago do inimigo) e de forma nada amistosa: mas afinal você é boa em quê?
E eu respondo: em detestar pessoas como você.